quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Nós

O passado correu em meu encalço o mês todo, e eu não pude escapar.

Estava lá nas fotos de anos atrás que ele teimava em fazer aparecer. Momentos felizes de união onde ninguém imaginava o curso que as coisas teriam. Festas, sorrisos, confidências, novidades. O futuro chegou e quebrou tudo isso em pedaços.

Eu não tinha ilusões que tudo ficasse como era, uma bolha de terno acolhimento e cumplicidade. As pessoas vão, outras ficam, nada é eterno. A vida segue. Mas o delicado fio conectando nossas vidas não foi ficando frouxo com o tempo pelo relapso desuso das conexões de ambos os lados, ele foi drasticamente interrompido, arrancado, cortado, de maneira traumática.

E quem cortou esse fio foi você.

Eu o segurei firmemente, como alguém que amarra um prédio em ruínas com laços de fita. As rachaduras estavam lá desde o começo, alicerces frágeis em fundações duvidosas, mas agarrei os pedaços de concreto com minhas mãos como se minha vida dependesse disso. E daí que éramos fundamentalmente diferentes? E daí que nossas opiniões divergiam, nossos sonhos não se encontravam, nossos idiomas não se entendiam? Se você estava ali, e eu também estava, havia uma razão.

Talvez eu teimasse em perceber que cada vez que essa ponte em terreno movediço desabasse mais um pouco, eu desistia um pouco de mim para que ela se mantivesse no lugar. Pequenas ideias, opiniões, gostos. Eu desisti de mim para não te incomodar, para me parecer com você e fingir que talvez nós, tão diferentes, podíamos ter tantas coisas em comum.

Mas eu notei tarde demais que me anular para te agradar sempre iria deixar sequelas. Servir de anteparo para seu espelho nunca foi um lugar muito digno, e quando esse espelho começou a refletir as coisas que você não queria ver, você jogou fora. E foi quando eu cansei de me calar que você se cansou de ver o que esteve ali o tempo todo.

Eu era o retrato apodrecido da imagem jovial e intacta, o reflexo real da beleza plástica e hipócrita que você carregava. A verdade doía, e a dor nunca lhe convém.

No final das contas, romper laços que apertam é um ato de liberdade inenarrável. Sou eu mesma hoje em dia, talvez mais quebrada em alguns lugares, mas dona de mim. Teu egocentrismo tóxico, teus preconceitos tortos, teu orgulho e teu temperamento me envenenaram tempo demais.


É por isso que te agradeço, ex-nó que me atava, por me libertar das amarras de pertencer à você.

5 comentários:

  1. Vc evoca umas imagens tão poéticas!
    "Eu o segurei firmemente, como alguém que amarra um prédio em ruínas com laços de fita." Lindo!

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  2. Que fantástico (novamente), Aika!! Muito bom! E tão real... Super me identifiquei... NA vida, as vezes é bem assim mesmo.

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  3. Que fantástico (novamente), Aika!! Muito bom! E tão real... Super me identifiquei... NA vida, as vezes é bem assim mesmo.

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  4. Que fantástico (novamente), Aika!! Muito bom! E tão real... Super me identifiquei... NA vida, as vezes é bem assim mesmo.

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  5. meu deus que saudades dos teus textos

    perfeitoo demais, muito profundo no jeitinho aika de ser <3

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