A textura levemente áspera de seus
cabelos nas pontas de meus dedos transmitem choques elétricos que ecoam direto
na parte mais profunda do meu cérebro. Entrelaço-os em seus cachos, prendendo com firmeza. Enterro meu nariz em sua nuca, inalando a fragrância agridoce de perfume e suor. O caramelo dos seus olhos me encara
com fervor, a luz amarela que vem da janela os fazem parecer duas pedras
douradas que me encaram com desejo. Deito-me em seu peito e escuto ecos de seu
coração descompassado, que acelera quando eu furtivamente planto beijos na base
de seu maxilar áspero. Você ronrona, geme, reclama quando a mordida em seu
lóbulo é mais forte do que você disse que poderia ser, e ignoro seus protestos
mordiscando ainda mais. Você geme mais alto. Eu mordo mais forte. "Merece
um castigo por isso", diz rouco entre suspiros, e eu digo que mal posso
esperar. As mãos fortes em meu quadril fazem-me girar para esquerda para que
você, deliberadamente, fique em cima de mim, me pressionando. "Virada de
jogo", um aviso. É você quem me morde agora. A ferroada ácida de seus
dentes em meu mamilo manda sinais confusos, mas não protesto. Sorrio, e meu
sorriso faz seu rosto se derreter feito vela quente em dia de finados, um
sorriso bobo de olhos redondos que não precisam me dizer mais nada, nada mais do
que eles dizem agora. "Eu gosto, ", eu explico, "eu sei",
você responde, e morde outra vez, no pescoço, e não é isso meu amor. Não é a
delícia da dor que me agrada. São seus olhinhos bobos reluzentes que derretendo
me fazem arder, uma bola incandescente cresce em meu peito quando me olhas
assim, e não preciso de mais nada. De palavra nenhuma, de nenhuma promessa, tua
face tão amável me conta todos esses segredos que você faz tanta questão em
esconder. Beijo seus lábios que rescendem a chocolate e vinho merlot, e não
há sabor mais inebriante.
Tuas mãos habilidosas
afagam meu seio esquerdo e escapa um suspiro profundo. Você adora, tu zombas. Não, não
adoro, eu amo. Você ri, achando que falo meramente de suas habilidades,
quando quero dizer que amo essa sua risada esquisita, teu cabelo bagunçado, e
como você é tão esperto e tão burro ao mesmo tempo. Sua língua faz curvas em
meu mamilo enquanto eu solto um gritinho ridículo, arfo meu peito em direção
aos seus lábios, e fecho os olhos imaginando que me dizes o que quero ouvir.
Você não irá dizer, eu sei, talvez porque não sinta, ou talvez porque minta, pra
si mesmo e pra mim, e finjo que essas mentiras na ponta de sua língua são o
suficiente.
Escapo de seus abraços, e levanto-me, para longe. Não ouso olhar-lhe nos olhos. Está escrito ali, todas as palavras mal ditas, as verdades dolorosas. O caramelo transforma-se em negro, nuvens cinzentas pairam em seu semblante enquanto visto minha roupa. Não me olhe assim, por favor. Vejo o nó de seus dedos esbranquiçarem, agarrando com força a beirada da cama desarrumada, como se segurasse a vontade de me pedir para ficar. O que foi?, você pergunta. Não fica assim, você pede.
Não é nada, meu amor. Nada.
Não somos nada.
E fecho a porta atrás de mim.